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Acontece que me canso de ser homem. Acontece que entro nas alfaiatarias e nos cinemas abatido, impenetrável, como um cisne de feltro vogando numa água de orizem e de cinza.
O cheiro das barbearias faz-me gritar em lágrimas. Eu só quero um descanso de pedras ou de lã, eu só quero não ver as lojas e os jardins, mercadorias, óculos, ascensores.
Acontece que me canso destes pés, destas unhas, e do cabelo e da sombra. Acontece que me canso de ser homem.
Não quero continuar a ser raiz nas trevas, vacilante, estendido, tiritando de sono, para baixo, nas tripas molhadas da terra, absorvendo e pensando, comendo dia após dia.
Não quero para mim tanta desgraça. Não quero continuar raiz e sepultura, subterrâneo solitário e adega com mortos, transido, morrendo de desgosto.
Por isso a segunda feira arde como o petróleo quando me vê chegar com esta cara de cárcere e uiva no seu decurso como roda ferida, e dá passos de sangue quente em direcção à noite.
Neruda
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